do que ainda faz sentido
Abril 21st, 2011 § Deixe um Comentário
E voltarei a amar as palavras da maneira honesta. É tudo muito parecido, mas é tudo diferente. Todos os lugares do mundo são apenas um quando não sabemos existir. Eu não soube. Que já não divido olhares nem óculos escuros, e nós dois já não passamos por aquela avenida casa vazia ondas do mar. Nunca mais caminhei sobre o absurdo do mundo, eu nunca mais soube desses segredos. Uma hora, o espanto gruda aos olhos e endurece. Eu viraria ao teus olhos e diria: algumas coisas acabaram. Então, não haveria motivos para estarmos ali. Você também mudou e não mais te surpreendes com minhas frases mal cozidas. Eles agora querem é gozar com o mundo. Sem se preocupar com dizeres, signos, sem se incomodar com as pontadas pela cabeça. Os beijos notívagos continuarão a encher a boca do estômago, mas a gente vai esquecendo que isso tem muito a ver com palavras. Preferimos deixar tudo nos limites do corpo, limites que podemos aguentar. Fica mais fácil envelhecer para o poético, para o prosaico, para a verdade e para todos os absolutos que odiamos por uma arrogância amarga que nos levaria a um andar tão indiferente em relação às sinuosidades das noites. Meu lado secreto é que nunca aprendi a enfrentar teu sorriso imenso. Tudo muito parecido. E eu precisava voltar. Sozinha, oca de todos os momentos anteriores e te dizer, de longe, que o passado é tão importante, e eu tentei cobri-lo com qualquer nova descoberta possível. O passado é importante e precioso. Eu me olho em um espelho de letras e digo: isso é eu. Não apenas tinta, pois reaprendi a me conhecer ali. Voltarei a amar as palavras da maneira honesta. Não é nada para dizer que te amo, como em dias passados, mas para dizer que pela última vez. Tu sabes. Meu desespero, meu algo-a-mais, tu sabes. É muito cedo, está amanhecendo. Te peço um último beijo, daqui. Faz de conta que te falo baixo: é muito mais difícil acreditar. É muito mais difícil chorar naquele filme ruim que jamais vimos juntos. Faz de conta que acreditas e me dás a mão. E o som de fundo é um piano terrível gritando que everything is gonna be fine, no matter what. E todos os lugares já não são aquela esquina onde nos desencontramos. Te peço outro último beijo. Uma despedida frente a horizontes largos, love, love, my season. Souveniers. Apaixono-me por certas palavras. Faz de conta que me apaixono por você. Teu sorriso imenso. Você e teu olhar de muita coisa. O espanto rola abaixo em uma frase mais elaborada do filme das dez. Faz de conta que você me ensina a ser tudo de novo. Mas é tudo diferente, eu sei. Mas já estamos novos, eu sei. É que voltei pra cá, uma terra mais doce e molhada, pra buscar a mesma palavra que te comoveu há tanto. E faz de conta que acreditamos novamente. Te dou, agora, um beijo. Depois toco as ondas caindo pela beira da areia, que não existe, e nos damos as mãos, que não existem, e não ouço quando dizes que me ama e não entendes quando respondo que também enquanto a cerveja esquenta, enquanto viramos o rosto, pensando – amanhã vai ser outro dia comum. Te escrevo ao som de um piano ruim. Imagino tudo que não dissemos com um afeto grandioso. Imagino tudo que não houve com um afeto grandioso, mas, sei, está tudo prestes a. Sempre esteve. Apenas escrevo. Uma ousadia inocente voar sabendo que o céu é um lençol velho que a gente pendurou no sofá quando tínhamos seis anos, que o cachorro comeu, que o tempo passou e que somos tão inteligentes e maduros para certas coisas. Insisto. Recomeço a voar. Você.