Let me be your star

Janeiro 21st, 2012 § Deixe um Comentário

Como em um roteiro preguiçoso. No seio do herói, danças malignas. O roubo, a mutilação. Aproximação de um abismo. Mas do abismo se vê. E, caso venha a dar um passo para trás, sonha-se.

Água cai do chuveiro e, lá fora, a água cai. Não havia escrito uma poesia que prestasse mas quase.

 

 

Menino dos olhos apertados e corajosos,

Janeiro 1st, 2012 § Deixe um Comentário

Sonhei com você outra vez.  Encontrei um garotinho que era sua cara. Seria seu filho? Sobrinho? Menininho solto, risonho, corajoso. Menino de sítio, de rua, de árvore, feito você. E me veio à mente… O que estaria fazendo? Casado? Feliz? Ainda cantando em espanhol? E a lua, será que ainda gosta da lua como gostávamos?
Nossa nossa nossa!
Menino, ainda penso em você. De vez em quando, bem de vez em quando mesmo, mas penso. E no quentinho de seu abraço, ó, jamais senti abraço mais quente. Tenho por mim que isso é coisa de coração bom, grande e aconchegante. Sabia que seu coração era bom quando vinhas me perguntar: ‘quer me contar o que acontece?’. Queria te contar tudo e te levar comigo. Não deu. Ai, menino, aquela música do Lô Borges continua sendo tua, certo? Sinto que não nos veremos mais, assim, nunca mais. E tudo bem. Se eu te encontrar na rua, ficarei tímida, você ficará tímido, não sei o que será e ouvi dizer que vai embora daqui muito em breve. Ou eu vou embora. Mas, veja, seja feliz, só isso. Seja feliz! Talvez tenha contas pra pagar e não saiba como, prazos e indecisões. Queria pegar tudo e resolver, te abraçar: deixa comigo. Não posso. Posso te desejar coisas boas e pensar em você de vez em quando, bem de vez em quando. Essa é minha promessa.
Que os menininhos sonhadores sempre me lembrem de ti, sempre.
Feliz 2012, meu querido.

Sonhos

Dezembro 29th, 2011 § Deixe um Comentário

Apartamentos sem móveis, colchões espalhados pelo chão, as velhas – e quentes – mantas vermelhas, felpudas. Quem dormia a meu lado, dessa vez, tinha rosto. Tinha febre. A cor de rosa brilhava junto a um sorriso alegre. Mesmo com febre, ele estava feliz. Magoado, mas feliz. Deitamos no meio da sala e nos cobrimos, quietos, tentando esquecer alguma coisa que o havia feito pegar o primeiro avião para meu mundo rubro de frio.

 

***

Eu me defendia. Afirmava ser uma boa pessoa. Eu e meu namorado maluco éramos boas pessoas. Ele dizia que não,  que não, que não.

***

Rituais de magia negra, um filme de terror. Eu só queria um chapéu de praia.

***

Acordei nervosa. Normalmente, a essa hora, voltaria a dormir. Mas tenho dormido demais.

Georgia, 10

Junho 6th, 2011 § Deixe um Comentário

Junho aparece devagar, como o inverno tropical – e de repente estão todos usando lãs e tirando os cobertores do armário. Os anos seguem um ritmo mesmo, acaba-se que esses meses médios e cinzentos são sempre menos alegres. Ou as sucessivas coincidências me habituaram ao padrão. O frio das más notícias. Junho traz lembranças como a poesia do rosto pálido da garota que amavas. E eu me repetia: das tristezas tira-se algo de proveitoso, das tristezas tira-se… Tirava-se. Pois eu pensava poetas, pois eu pensava países, pois eu pensava partidas e, agora, agora Fontainebleau está tão longe da Cidade das Luzes. Sobraram-me junho e suas feridas, antiguíssimas, oitocentistas e românticas, essa casca morta do que fui e do que foste. Eu escrevia incessantemente.Detesto-me um pouco por meus terríveis escritos, eu – exagerada esteta e apolínea – jamais deveria aceitar aqueles textos, lotados de advérbios em tom de desabafo vulgar. Escrita pulsante é para poucos mágicos – provavelmente, geminianos. Então, desorientada, proíbo-me de te citar, a partir de hoje. Ainda que siga te escrevendo. Minha maldição é que a única matéria com que sei trabalhar é o amor. Amor despedaçado pelo correr dos tempos e que, a menos de dez graus, encontra as maneiras mais loucas de ser revivido. Por uma música pop que detesto, por cachecóis azuis. Já é tarde. Os dedos estão gelados e planejo fazer outra coisa com eles. Sonho em escrever uma enciclopédia. Em montar bicicletas, em desafiar essa minha falta absoluta de talentos. Já é tarde, mais tarde do que ontem, concluo, o que significa que a insônia tem se agravado. Porém é junho e a tudo segue. Logo, as estações começam a encher, e afinal o sol nasce. Tudo segue e eu sigo essa dança artificial com palavras, quando elas já não dizem nada. Um grande animal empalhado. É junho, insisto a mim mesma com certa melancolia. E quase sinto a vida escapando pelos dedos. Há anos é junho e continuamos aqui.

solitude

Junho 5th, 2011 § Deixe um Comentário

eu e marguerite duras
uma música, qualquer uma
i wish you love
eu te desejando o mundo
arquitetando
um chá verde com menta

(já fazem 11 graus)

sinto dores
que já não sei de onde vêm
estamos envelhecendo
você mais rápido
geminiano e fugidio

(um dia desses, eu parto pra essa berlin)

penso em casacos
chás marroquinos
em estreitos
e cordilheiras

(imagino o que fazes agora)

esperando que o amanhã
amanheça bonito,
eu e marguerite duras
sentimos falta
de teus olhos azuis

5 minutos

Junho 1st, 2011 § Deixe um Comentário

pois nesse ritmo
te tiro duma lembrança

um encontro efêmero
uma despedida esvoaçante
foste o que de pueril
passou pela concreto da vida

cantavas
em español
sonhos de girassóis
em apenas uma
das mil noites
que nada têm a haver
com seus olhos apertados
e corajosos

outra vez,
parto para onde
os horizontes são largos
e as manhãs iguais
e às vezes eu nem percebo
que a vida foi mais
a música que cantavas
do que esses anos todos.

like a rolling stone

Maio 20th, 2011 § Deixe um Comentário

Ele me dizia sempre: o difícil da vida é a gente estar dentro dela. Mas que eu às vezes flutuava. Então, na primeira cena, estou parada na porta, anos à frente daqui. E vou te confessar que não entendi nada: não entendi nada da existência, nada do espiritismo e dos mistérios que poderiam reger o universo. Lembro da mesma avenida onde inventávamos constelações. Essa é a ruína a que toda afeição está destinada: hoje, me passou a vida inteira na cabeça. E lá estavas tu, dançando barroco e preciso, como apenas tu sabes, mesmo tão longe, estavas lá. Eu não entendi nada da lógica. Eu sei que só precisamos da razão porque escolhemos, então não precisamos. Destrói o que se chama história e todo momento são aqueles bares lotados pela fumaça e pelo álcool, todo momento é nossa juventude, toda poesia são nossos lirismos. Me diz do eterno no mundo, da verdade inexistente, e ignora nossa distância de agora. Porque já não há presente, há uma eternidade de dores que desconhecemos, de rostos anônimos, galáxias que não podemos mais inventar. E te olhar, mais uma vez, é essa distorção de sentidos. Não entendi nada do amor, mas talvez tenha entendido. Sobre as condições superficiais que nos separam, não importa mais: tudo é distante e desconexo. Você olha para a parede em desespero, essa tua vida que te cansa e te oprime e já não resta mais tempo. Teu rosto infantil esconde tanto que não fazes ideia, pois eu nem suspeitei do inferno que percorreu antes de me encarar com olhos apertados, tão distraído com a sujeira que nos cerca. Tu não suspeitas que meu pensamento viria justo te encontrar, mas como não se deseja o que é natural?
Que eu te procuro através do tempo.
Que nos perdemos em frente a um bar sujo.
Virar o corpo avesso seria vir ao teu encontro.
Te espero.
E, então, te olhar vai ser uma alvorada:
‘o amor não é consolo, é luz’.

do que ainda faz sentido

Abril 21st, 2011 § Deixe um Comentário

E voltarei a amar as palavras da maneira honesta. É tudo muito parecido, mas é tudo diferente. Todos os lugares do mundo são apenas um quando não sabemos existir. Eu não soube. Que já não divido olhares nem óculos escuros, e nós dois já não passamos por aquela avenida casa vazia ondas do mar. Nunca mais caminhei sobre o absurdo do mundo, eu nunca mais soube desses segredos. Uma hora, o espanto gruda aos olhos e endurece. Eu viraria ao teus olhos e diria: algumas coisas acabaram. Então, não haveria motivos para estarmos ali. Você também mudou e não mais te surpreendes com minhas frases mal cozidas. Eles agora querem é gozar com o mundo. Sem se preocupar com dizeres, signos, sem se incomodar com as pontadas pela cabeça. Os beijos notívagos continuarão a encher a boca do estômago, mas a gente vai esquecendo que isso tem muito a ver com palavras. Preferimos deixar tudo nos limites do corpo, limites que podemos aguentar. Fica mais fácil envelhecer para o poético, para o prosaico, para a verdade e para todos os absolutos que odiamos por uma arrogância amarga que nos levaria a um andar tão indiferente em relação às sinuosidades das noites. Meu lado secreto é que nunca aprendi a enfrentar teu sorriso imenso. Tudo muito parecido. E eu precisava voltar. Sozinha, oca de todos os momentos anteriores e te dizer, de longe, que o passado é tão importante, e eu tentei cobri-lo com qualquer nova descoberta possível. O passado é importante e precioso. Eu me olho em um espelho de letras e digo: isso é eu. Não apenas tinta, pois reaprendi a me conhecer ali. Voltarei a amar as palavras da maneira honesta. Não é nada para dizer que te amo, como em dias passados, mas para dizer que pela última vez. Tu sabes. Meu desespero, meu algo-a-mais, tu sabes. É muito cedo, está amanhecendo. Te peço um último beijo, daqui. Faz de conta que te falo baixo: é muito mais difícil acreditar. É muito mais difícil chorar naquele filme ruim que jamais vimos juntos. Faz de conta que acreditas e me dás a mão. E o som de fundo é um piano terrível gritando que everything is gonna be fine, no matter what. E todos os lugares já não são aquela esquina onde nos desencontramos. Te peço outro último beijo. Uma despedida frente a horizontes largos, love, love, my season. Souveniers. Apaixono-me por certas palavras. Faz de conta que me apaixono por você. Teu sorriso imenso. Você e teu olhar de muita coisa. O espanto rola abaixo em uma frase mais elaborada do filme das dez. Faz de conta que você me ensina a ser tudo de novo. Mas é tudo diferente, eu sei. Mas já estamos novos, eu sei. É que voltei pra cá, uma terra mais doce e molhada, pra buscar a mesma palavra que te comoveu há tanto. E faz de conta que acreditamos novamente. Te dou, agora, um beijo. Depois toco as ondas caindo pela beira da areia, que não existe, e nos damos as mãos, que não existem, e não ouço quando dizes que me ama e não entendes quando respondo que também enquanto a cerveja esquenta, enquanto viramos o rosto, pensando – amanhã vai ser outro dia comum. Te escrevo ao som de um piano ruim. Imagino tudo que não dissemos com um afeto grandioso. Imagino tudo que não houve com um afeto grandioso, mas, sei, está tudo prestes a. Sempre esteve. Apenas escrevo. Uma ousadia inocente voar sabendo que o céu é um lençol velho que a gente pendurou no sofá quando tínhamos seis anos, que o cachorro comeu, que o tempo passou e que somos tão inteligentes e maduros para certas coisas. Insisto. Recomeço a voar. Você.

Abril 19th, 2011 § Deixe um Comentário

tuas músicas tocam monotonamente em uma rádio antiga,
enquanto um mundo vibrante e colorido explode em tantas outras estações
deixamos um copo de cerveja quente na mesa
um esboço rabiscado n’algum canto da cidade
vou declarando momento em que tua falta não dói
mas antes preciso contar que descobri
que nostalgia é te olhar pela última vez
antes de te mergulhar no obscuro da memória
e também
o resto do LSD de ontem
as esquecidas ruínas dos países esquecidos,
esse perfume doce que imagino

em uma manhã de primavera

quando ainda existíamos

so many songs we forgot to play

Abril 17th, 2011 § Deixe um Comentário

das coisas que passam
dessa permanente impermanência
um pensamento rompe um dia
o fim da tua juventude, nossa história
teu rosto cansado, casado
“sem entusiasmos, porém com lucidez”
e a minha mesma aflição de sermos
um céu de possibilidades
que o tempo escureceu.

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