“Disse o Senhor para mim que queria que eu fosse um novo louco no mundo”
Cala a boca, pensamento, ou te enfio uma faca!
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O passado, a memória, a hora das confissões cruas ditas em linguagem direta
(como é possível, um telefonema mover tanta coisa? Ser mais sólido que o presente, e mais presente que a própria realidade?)
(não adianta falar em volta do tempo, não sei mais o que fazer diante de um sinal tão claro de que as coisas não se repetem quando entramos em uma espécie de solidão diáfana)
(leitura de um mapa astral?)
(sensação – outra vez! – de ser personagem de uma história, estar dentro de um texto alheio)2
em 1976 aos poucos eu voltava a escrever
uns versos soltos na página, só para ver como as palavras se encontravam
como agora
(acabo de receber seu telefonema)3
fomos um alegre bando de idiotas, essa é a verdade -
devíamos ter demorado por mais tempo
pelas esquinas de nossos encontros sob árvores da Lapa
queria ter dado mais atenção
a suas 1.300 páginas datilografadas de poemas inéditos
em envelopes fechados guardados dentro de caixas de cartolina
às pilhas de desenhos a bico de pena enchendo gavetas de um armário
e mais as pastas com inumeráveis fotografias (janelas abertas para a alucinação)
nem sei se ainda vale a pena falar disso, voltar a conversar sobre o livro que não chegamos a escrever juntos e a ocasião em que não transamos apenas por descuido, éramos tão distraídos
agora não adianta, nada disso chegou a acontecer
- são sombras de sonhos, lembranças de havermos passado por onde mal estivemos4
lembranças de um sonho que me golpeia, imprevisto, e prossegue após o despertar
acompanha-me pelas tarefas do amanhecer
suas imagens tão irreais e tão presentes
deixam uma sensação de opressão no peito5
conhecemo-nos tão bem, daí a sensação de havermos vivido outra vida como se existissem mundos paralelos, outra vida que prossegue enquanto prosseguimos esta vida:
em algum lugar há um sobrado, suas paredes recobertas de hera (onde? em qual Europa interior?), cruzo sua porta, despeço-me (para onde? aeroporto? tomar um táxi? terminal, estação ferroviária? logo ali?)
sei que passamos por ele em um encontro que nunca aconteceu, sonhei com uma casa onde você esteve, na qual não entrei a não ser em sonho
chego lá: agora é você quem se lembra de haver sonhado o mesmo sonho e começa a escrever um poema
sobre sonhos tão fortes que prosseguem ao longo do dia sob forma de peso no peito, emoções e imagens agônicas
projetadas em papéis recobertos de textos, desenhos, fotografias que agora retratam coincidências de memórias
só sei que ainda voltaremos a nos ver e a conversar sobre o livro que não escrevemos juntos e nossas viagens que nunca coincidiram por nos conhecermos tão bem6
terei que ser movido sempre assim, por encontros e desencontros?
Tentei escrever algo, mas isso já disse absolutamente tudo que eu precisava. Prefiro roubar textos alheios do que as minhas próprias histórias repetidas.
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Verborragias, cartas de amor. Essas trovas inúteis, descuido que se há de cometer em algum lugar da vida, a ração do meio-dia, da meia-noite, construída com emoções viciadas, com a facilidade de tratar o outro como um receptáculo inerte. Assim: sabendo-se do sintoma daquela palavra, aproveitando-se da repetição, das dores de cabeça que sempre vêm depois de uma noite de bebedeira.
- Um pacote de reações excessivamente óbvias.
Se eu escrevesse, se algum dia eu tivesse a coragem de abandonar algumas palavras pelo mundo, morreria de ciúmes dessas pessoas baixas como eu mesma sou. Escapando-se pelas tangentes dos sentimentos, demonstrando apreço pelo visceral – nada além do travesseiro conhecido, do sofrer-com-o-texto. Entendo tudo milimetricamente disposto – disposto para acharmos impossível que seja de outra forma, para que passemos enorme parte de nossa vida elaborando caminhos, cansando a vista pra chegar à página 393 de Cem Anos de Solidão, gloriosamente, apagando assim o peso de tal dimensão. Conhecendo a direção do novo pulo, sabendo que dali é impossível avançar.
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